O grito da Terra

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Mappa Mundi, Orontius Finnaeus, 1536.

A Terra precisa de nós, da nossa oração e da nossa acção. É urgente ouvir e responder ao grito da Terra, que se encontra doente e reclama os nossos cuidados. Pela oração pedimos ajuda a Deus, para olhar a Criação como um dom a preservar e não como recurso a explorar.

Hoje assiste-se ao terrorismo para com a natureza. Só em Portugal, os incêndios devastaram quase metade de toda a área ardida na Europa, durante este Verão. De que valem todos os esforços de crescimento económico, se viermos a perder a nossa maior riqueza: a casa comum? O afinco no combate aos incêndios não se sagrou suficiente. As medidas de prevenção, tais como a definição de um plano de gestão florestal, ou a limpeza das matas, carecem ainda de um maior comprometimento.

Ontem, várias igrejas cristãs de todo o mundo uniram-se ao convite do Papa Francisco e do Patriarca Ecuménico Bartolomeu, e rezaram em uníssono pelo cuidado da Criação. Na mensagem conjunta publicada por esta ocasião dirigiram um apelo urgente “a quantos ocupam uma posição de relevo em âmbito social, económico, político e cultural” para que dêem “ouvidos ao grito da terra e a cuidar das necessidades de quem está marginalizado, mas sobretudo a responder à súplica de tanta gente e apoiar o consenso global para que seja sanada a criação ferida”.

A grave crise ecológica mundial, com as suas expressivas mudanças climáticas, não pode ser uma preocupação individual de alguns. Pelo contrário, deve constar da agenda global, pois não só afecta as sociedades actuais, como compromete as gerações vindouras.

A cimeira das 20 maiores economias mundiais (G20) sobre a luta contra o aquecimento global, agendada para Dezembro do corrente ano, no seguimento do “Acordo de Paris”, constitui um sinal de confiança rumo ao que o Papa denomina por “conversão ecológica”, isto é, “viver a vocação de guardiões da obra de Deus”.

No decorrer dos recentes dias negros vividos nos EUA, fruto das graves consequências do furacão Harvey, os bispos americanos encetaram uma “época da criação”, que se iniciou a 1 de setembro e terminará no dia de S. Francisco de Assis, 4 de Outubro. Durante este mês, todas as pessoas de fé são convidados a realizar “actos concretos de misericórdia e ternura para com a terra, a nossa casa comum”.

Cultivar uma maior sensibilização pessoal para com o cuidado do meio-ambiente, para além de conduzir a um maior reconhecimento das diversas agências e instituições que promovem a defesa do planeta, poderá também inspirar os grupos e movimentos católicos a uma maior consciência da responsabilidade face ao cuidado da casa comum. Uma das consequências da experiência de fé, alicerçada no encontro com Jesus, é a capacidade de escuta. Escutar, para além da superficialidade, os constantes apelos da Terra.