Férias em terra meio cheia, meio vazia

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Vincent van Gogh, 1889 © Kröller-Müller Museum, Otterlo

Por Aires Gameiro

Alguns dias de férias na terra onde se nasceu dá para ver a aldeia e arredores, meio cheios e meio vazios em relação ao tempo de inverno quase sempre quase vazios. Agora mais gente de férias, mais “franciús” e movimentação para o grande arraial do verão: tudo a tornar a terra meio cheia.

Dá-se um passeio sob tantos grandes carvalhos que lhe dão, de novo, direito ao nome de carvalhal em que perdura o mistério de não se ver nem ouvir um passarinho. Há terrenos limpos dos silvados e matagais alternados de outros matagais impenetráveis que ameaçam algumas casas a menos de cem metros de possíveis infernos, como vimos no passeio por Pedrogão Grande e Figueiró dos Vinhos. E numa rua duas crianças munidas de duas caixas de fósforos e uma pedrinha envolvida em papel velho brincavam aos incêndios como, diziam, a professora tinha exemplificado na escola. Nem faltam árvores mortas de pé, aqui e ali, uma até no percurso da procissão a ameaçar pessoas e carros estacionados por baixo dela a lembrar a tragédia da Madeira. As moscas do Mediterrâneo tomaram contas das peras, pêssegos, maçãs e figos ainda nas árvores e no chão em grandes camadas por falta de pessoas para colher a boa fruta e animais para comer a outra. Continua por ali muita a servir de ninhos multiplicadores de novos insetos ao infinito para este e o próximo ano. A falta da passarada, que os herbicidas extinguiram, não ajuda. O meio vazio atinge também alguns dos conhecidos e amigos dos anos anteriores. Despediram-se deste viver sem nos avisarem.

São poucas as crianças, os jovens e visitantes e ainda por cima pouco entendem a nossa língua. O meio vazio mais se alarga, fazendo progredir o deserto humano mesmo neste litoral. Ficou-me o consolo do acolhimento das duas dezenas de sobrinhos, alguns, também, de arribação estiva, e de encontros casuais com conhecidos e amigos com quem se desenterram lembranças e vivências cheias de sentido pelo protagonismo comum de longa data. Por momentos a vida fica mais cheia e animada com os afetos refrescados em momentos privilegiados nalgum bar, restaurante, igreja, leilão de angariação de ofertas e ruas nos raros momentos em que não estão desertas, como é habitual. No arraial da festa, o convívio, as vendas dos bolos dos andores, as quermesses, barracas e cantina da comissão de jovens com iniciativa, colhem-se novidades, encontram-se companheiros de escola, tudo a encher um pouco mais os dias de férias.

Na igreja participa-se na missa, desta vez com celebração dos 25 anos de sacerdote filho da terra, o padre Pedro Ferreira, com quem se partilha uma cerveja após a procissão. Nesta, pelas 16h00, marcha-se aos ritmos da filarmónica que não prima por temas de fé cristã, sob um calor de boca de forno, à beira dos 40 graus. A modorra apodera-se das pessoas no arraial em que deambulam a comprar bolos dos andores, rifas, comes e bebes, cerveja e tremoços, a fazer tempo até cansar as pernas, aguentando porque é arraial e vai haver folclore. Os piqueniques de arraial desapareceram em favor dos petiscos e dos manjares da cantina montada pela comissão, este ano constituída pelos poucos jovens e jovens adultos. Não tarda que que um monstro de camião-palco invista agressivo pelo adro dentro, estacione entre a multidão e a igreja e comece a espreguiçar-se e a estender peças e mais peças hidráulicas quais braços de maquinaria de guerra a tapar da vista dos devotos toda a igreja até uma altura de mais de sete metros avantajados como a dizer: agora sou eu o vosso deus. Ali se irá desenrolar a “arte final” da festa ao som de ritmos estridentes festivaleiros audíveis a três e quatro quilómetros. Acabadas as danças de folclore, fica apenas o entretenimento mudo. Só as goelas da sua maquinaria terão direito a clamar abafando todas as tentativas de palavra de convívio dos amigos reunidos. Façam fotos e selfies. Não faltarão os que fazem a leitura de todo o cenário como um contra sentido e convite a esquecer o sentido da igreja que fica por trás com as imagens da festa, o altar da celebração, da oração e do convite à fé. O protagonismo do palco gigante e dos sons clamados aos quatro ventos deixam o desejo de que as letras dos ritmos não arrasem quaisquer resquícios de sentido dessa fé cristã numa festa em honra do Sagrado Coração de Jesus e de Nossa Senhora do Rosário de Fátima. Nem faltam os que segredam os milhares subtraídos às ofertas de um ano de angariações para a festa religiosa e as coisas da paróquia. O fim da obras de restauro do centro paroquial e a renovação das alfaias terá de esperar mais um ano dos já quarenta anteriores como corre de boca em boca. Enfim uma terra e festa meio cheia e meio vazia de tudo e de sentido.

Funchal, 26 de Agosto de 2017