Homilia do Bispo do Funchal

Missa pelas vítimas do trágico acidente, por ocasião da Festa da Senhora do Monte, 22 de agosto de 2017

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Homilia de D. António Carrilho, Bispo do Funchal,

na Missa pelas vítimas do trágico acidente,

por ocasião da Festa da Senhora do Monte – 2017

 

Sé do Funchal, 22 de Agosto 2017

 

Com Cristo, solidários na dor e na esperança

 

O trágico acidente ocorrido no Largo da Fonte, enquanto era celebrada, na igreja paroquial do Monte, a festa de Nossa Senhora, deixou-nos todos consternados. A assunção de Maria ao céu era precisamente o grande sinal e o primeiro fruto da vitória de Jesus sobre a morte e eis que, de forma completamente inesperada, o sofrimento, a dor e o luto atingiam muitas pessoas e famílias, que vinham prestar o seu voto de gratidão à Senhora do Monte. Toda a vida ceifada assim de forma tão repentina é como uma espada de dor, que fica profundamente marcada na memória e no coração dos mais próximos.

Diante da tragédia, levantam-se naturalmente em nós muitas interrogações, que podem gerar alguma ou até muita perplexidade. Confrontamos o mistério da morte e do sofrimento humanos com a ação de Deus nosso Pai, ao mesmo tempo misericordioso e justo. Perguntamos pelas razões de tanta dor. Admiramo-nos que tudo isto tenha acontecido num momento de tão grande expressão de fé do nosso povo. Somos desafiados a enfrentar o sofrimento e a morte com o vigor da fé de Maria junto à cruz de seu Filho, a cruz do inocente, injustamente condenado pelos homens.

Quando alguém sofre, quando alguém morre, nunca se está longe da paixão de Jesus e cada um é mesmo chamado a unir-se a ela. Para além de todas as razões, há uma comunhão que se pode renovar e que não consiste em explicações e razões – sempre insuficientes – mas numa presença, numa partilha silenciosa da dor, numa pronta disposição para ajudar aqueles que sofrem.

 

Uma rede de solidariedade

 Depois de um momento de grande surpresa, de apreensão e de avaliação sumária do que tinha acontecido, houve uma pronta reação de entreajuda àqueles que tinham sido vítimas do acidente. Uma rede de solidariedade formou-se imediatamente, mostrando que ninguém fica insensível à dor do outro e que a nossa humanidade, ferida pela tragédia, nos congrega e nos aproxima.

Esta sã proximidade vence o medo e a indiferença. Ela é um sinal da fé que nos une e que nunca nos deixa alheios à humanidade de quem sofre. Esta disposição a sarar as feridas dos outros é já uma vitória sobre o mistério do mal que, de forma inopinada, atinge a nossa vida. Apesar de tudo o que já era irremediável, as pessoas e as instituições uniram-se numa ação comum para salvar o que ainda era possível e confortar os que tinham perdido os seus familiares. Esta ação deve continuar, porque as feridas de um momento, e mais ainda as feridas mais profundas da alma levam tempo a sarar e requerem o esforço de cada um, a ajuda e a compreensão dos outros.

Há o que chamamos um trabalho de luto a realizar para sarar a ferida aberta no coração dos que perderam os seus, para integrar a sua ausência no dia-a-dia do relacionamento familiar, para vencer a tristeza que se fixa no passado e impede a abertura à esperança. A nossa oração hoje, aqui, há-de ser um sinal expressivo dessa esperança de vida eterna, que já germina em nós pela fé e que a ressurreição de Jesus realizou e nos deixou como promessa.

 

Buscar o sentido da vida

 Para assumir de forma mais lúcida a própria vida, para viver mais plenamente, não podemos fugir ou menosprezar o desafio que representa para nós o sofrimento e a morte. Este é um apelo a aceitarmos a nossa condição de peregrinos, a buscar com humildade na fé o sentido da vida, a não desistir, apesar dos impasses e dos problemas, de trabalhar, com a ajuda de Deus, para a construção duma humanidade mais verdadeira.

Jesus Cristo, ao assumir a nossa morte, mostra-nos a grandeza do homem e a grandeza do amor de Deus pelo homem. Ele fez suas as dores do mundo, dando a sua vida, de tal modo que todos os humilhados da terra podem, na sua noite, identificar-se a Ele e encontrar reconforto n’Ele. A vida é assim uma travessia pascal, onde temos de nos debater com a realidade da morte, sem nos deixarmos vencer por ela.

 

Realização da nossa esperança

O livro da Sabedoria diz-nos que Deus guarda na sua mão, isto é, sob a sua proteção aqueles que reconhece como filhos. A morte que os afeta não impede a sua passagem para a vida. Pelo contrário, ela é a introdução na verdadeira vida, a vida plena que corresponde e supera as suas aspirações. A sua partida deste mundo, isto é, a sua morte pode ter sido considerada uma desgraça, um aniquilamento, para quem olha apenas para a realidade exterior e para quem julga que a aparência governa a vida. Porém, mais profundamente, a fé ensina-nos que a morte é uma passagem. É a Páscoa da paz.

Os justos, diz o livro da Sabedoria, foram postos à prova, mas a sua esperança não foi em vão porque Deus, depois de aceitar o seu sacrifício, dá-lhes o prémio da comunhão com Ele na eternidade: «compreenderão a verdade» e «permanecerão com Ele no amor».

A morte é pois um marco, o sinal da passagem deste mundo para Deus, a prova que revela de maneira definitiva a verdade de tudo o que fizemos e construímos na vida. No final está a promessa de compreender a verdade, que é o próprio Deus e participar no seu amor. Esta promessa é a realização da nossa esperança.

 

Vinde a Mim, Eu vos aliviarei

No Evangelho, Jesus louva o Pai porque Se deu a conhecer aos pequeninos, isto é, aos humildes e não àqueles que se julgam sábios e inteligentes, porque se fecharam no seu saber. A sabedoria e a inteligência só se tornam obstáculos à fé quando são proclamados como critérios absolutos e ocupam assim o lugar que só a Deus pertence. As verdades que Deus revela aos pequeninos através da sua Palavra têm a ver com a nossa vida e são sementes de esperança.

É Jesus que liberta e dá novo ânimo aos que andam cansados e oprimidos. Por isso, diz: «Vinde a Mim, vós todos que andais cansados e oprimidos e Eu vos aliviarei». Ele é o pão de Deus, a água da vida que sacia os que andam à procura de razões de viver, a esperança dos que num momento ou noutro da vida se deixam vencer pelo cansaço e pela tristeza.

Seguir Jesus é o convite que nós não podemos deixar de fazer. Como os discípulos foram ter com o mestre e ficaram junto d’Ele, segui-lo significa tomar sobre si o seu jugo e aprender a ser manso e humilde de coração. O jugo suave e leve de Jesus é uma escola de vida e de humanidade. É a fonte da paz. Dá-nos a força e a coragem para fazer frente à prova dolorosa da morte sem nos deixarmos vencer por ela.

 

Viver para o Senhor

Escrevendo aos Romanos, S. Paulo, na segunda leitura, dá conta da fonte onde ele mesmo bebe para poder dar de beber aos outros. A vida e a morte têm um sentido novo quando, livremente, pertencemos ao Senhor unindo-nos à Sua Páscoa: «Viveremos para o Senhor», «morreremos para o Senhor». O que conta, afinal, é o dom da nossa vida, no qual consiste o amor: entrega a Jesus Cristo, entrega aos irmãos; participação na vida de Deus e comunhão com os outros.

Esta comunhão abrange todos os que já partiram deste mundo. Deus conhece-os pelo seu nome. Chamou-os e quer partilhar com eles o Seu amor. Nesta esperança comum, rezamos por todos, recordando-nos de cada um dos seus nomes e pedindo a Deus que os purifique e os faça participantes na plenitude da sua vida e do seu amor.

 

Funchal, 22 de Agosto de 2017

†António Carrilho, Bispo do Funchal