Comentário à Liturgia do XX Domingo do Tempo Comum

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Por Padre Fábio Ferreira

Neste XX Domingo do Tempo Comum, despertamos com o grito de uma mulher perdida no meio da multidão e com a sua vontade de se encontrar com Deus: «Senhor, Filho de David, tem compaixão de mim». A mulher, classificada como pagã, isto é, distante da Lei de Deus e do povo da Aliança, exorta Jesus a usar da “compaixão” para com a sua filha.

De origem latina (cum-passio), a palavra significa «sofrer com o outro». O ruído da multidão manifesta uma resistência ao problema da mulher que precisa de ser escutada e ao mesmo tempo acudida. Perguntemos a nós mesmos: Como chegar até Jesus e como fazer que o nosso pedido seja atendido? Como saborear a compaixão de Jesus para as nossas vidas? Como desviar o olhar de Jesus para alguém perdido no meio da multidão?

Os discípulos chegam perto de Jesus e exortam-no: «Atende-a». Somente eles é que tocaram o coração de Jesus para resolver aquele pedido. Atualmente, a Igreja, como povo orante que caminha guiada pelo Evangelho, consegue tocar o coração de Jesus, quando se reúne para celebrar o encontro com o Senhor que se dá na Eucaristia. A missão da Igreja é tornar Jesus presente na vida de tantos homens e mulheres que gritam e exortam a compaixão de Deus.

O silêncio de Deus não significa que Deus desistiu de nós, mas alguém que vê as lágrimas de um rosto ferido, que ouve as lamentações de quem clama e que guarda todas as nossas orações. Em Igreja, somos convidados a gritar, orar, celebrar e viver a fé em conjunto e eleva-la a Deus que na sua omnipotência, desce ao encontro dos pecadores derramar as suas graças. No Evangelho, a mulher deixa o silêncio da dor e partilha o seu sofrimento com Jesus e com aquele grito insistente e persistente a mulher mostra a sua fé pedindo, na sua humildade, uma pequeníssima migalha da abundância de uma mesa preparada para os filhos. Da resposta arrojada e sábia, Jesus consegue entrar na sua vida e ver a grandeza da sua fé.

Citando o Papa Francisco: «Deus nos surpreende sempre, rompe os nossos esquemas, põe em crise os nossos projetos e nos diz: confia em Mim, não tenhas medo, deixa-te surpreender, sai de ti mesmo e segue-Me!”. O demónio, que atormenta a filha daquela mulher, foi vencido pela fé. Deus não está encarcerado nas fronteiras de Israel. Ele é um Deus de várias surpresas e vai ao encontro dos homens e mulheres que prostrados no chão da solidão e da escuridão mendigam compaixão e misericórdia. Ele desperta a fé e confiança em Deus, ajuda a perder os medos, levanta-nos juntamente com a nossa cruz, alimenta-nos a volta da mesa dos filhos de Deus, segura-nos pela sua própria mão para nos conduzir neste mundo, coloca-nos nos braços de Maria para saborear a ternura da mãe e por fim abre-nos a porta da eternidade.