Santa Clara de Assis, a Mulher Eucarística

Por Ir. Maria da Cruz, osc.

Santa Clara de Assis

 No dia 11 de Agosto celebramos a solenidade de Santa Clara de Assis. Hoje, queremos debruçar-nos sobre a sua intimidade com Jesus na Eucaristia, – o mistério vivo do Amor que iluminou e configurou a vida desta filha predileta da Igreja.

No Processo de Canonização, as Irmãs de Santa Clara revelam-nos a sua paixão e encanto pela Eucaristia. Essa experiência íntima, silenciosa, de singular beleza, continua nos dias de hoje, a gritar o grande Amor de Clara pelo Santíssimo Sacramento. No conventinho de S. Damião o Amor é sempre amado!

Pela noite calada, depois de matinas, a Irmã Clara, prostrada diante do sacrário, continuava em oração silenciosa. Chegou até nós a ressonância deste ardente amor. Jesus que era de condição divina, segundo as suas próprias palavras, aceitou ser “desprezível, desamparado e pobre neste mundo pela salvação do homem”.

Como não exultaria de felicidade, ao ouvir o “Senhor Papa” João Paulo II proclamar a Virgem Maria – “Mulher eucarística” – e o seu convite insistente a prolongar a celebração do sacrifício eucarístico na Adoração ao Santíssimo Sacramento? “É bom”, diz o Santo Padre, “prolongar o tempo diante da Eucaristia e reclinar a cabeça sobre o seu peito para ser tocado pelo Amor infinito do seu coração (Carta Encíclica de João Paulo II, “A Igreja vive da Eucaristia”, n. 25).

A Eucaristia – humildade sublime

Também Clara, à semelhança de S. Francisco, não conhece nada maior nem no céu nem terra do que o Santíssimo Corpo e Sangue de Nosso Senhor. “Ó grandeza admirável, ó condescendência assombrosa, ó humildade sublime, ó sublime humildade que o Senhor de todo o universo, Deus e Filho de Deus, se humilhe a ponto de se esconder, para nossa salvação, nas aparências de um bocado de pão”!

Desses colóquios de profunda intimidade com Jesus, ao partilhar com as suas Irmãs o fogo que lhe incendiava o coração, desvendava-se um pouco desse mistério: “une o teu coração Àquele que é encarnação da essência divina, para que contemplando-O, te transformes inteiramente na imagem da sua divindade. Assim, também tu poderás experimentar o que só os amigos podem sentir quando saboreiam a doçura escondida que Deus reserva desde toda a eternidade àqueles que O amam” (3ª Carta de Santa Clara).

 

Clara de Assis – Eucaristia perene

 Toda a vida de Clara está centrada na Eucaristia. É nela que aprende a viver escondida, despojada, em completa pobreza e fraternidade. A sua alegria inalterável e o seu rosto sereno, sem nenhum sinal de perturbação, contagiam e revelam o segredo que traz escondido no coração, porque “vive banhada no esplendor da glória de Deus”.

Esta oração contínua e admirável contemplação não a distanciava das suas Irmãs nem dos problemas da humanidade. Muito pelo contrário. Acolhia com todo o amor os pobres e doentes que batiam à porta do convento de S. Damião e numerosas foram as curas físicas e espirituais que realizou. Com infinita delicadeza e amor, Clara mantém-se desperta e vigilante em perfeita sintonia cósmica. No Coração eucarístico de Cristo, escutava o coração da humanidade compadecendo-se dos aflitos e “sendo afável e generosa com todos”. Confia-lhe a sua vida, as suas Irmãs e as necessidades da igreja e do mundo.

Quando os muçulmanos invadem Assis e assaltam o Mosteiro, Clara, então muito doente, pede que lhe tragam a caixinha de prata onde tem guardado o seu preciosíssimo tesouro. Em humilde e ardente prece, suplica ao Senhor Deus Altíssimo a proteção para a cidade e para as suas Irmãs. Jesus escuta-a e fala-lhe com a sua Presença real e atende o seu pedido de fé simples e confiante. É por este motivo que Clara é apresentada na sua iconografia com uma custódia na mão.

 

Eucaristia, oceano de graças

No século XII a comunhão frequente era desconhecida. Clara solicita a licença para comungar sete vezes por ano, o que nessa altura representava um número significativo, pois o IV Concílio de Latrão permitia apenas uma comunhão anual.

Motivada pelo seu imenso amor a Jesus, quando a doença a prostra no leito, já sem forças, Clara recostada sobre almofadas, tece finíssimos corporais que depois serão distribuídos pelas “igrejas do vale e das montanhas de Assis”. Queria que o Sacramento do Altar fosse celebrado e transportado com toda a dignidade e veneração.

“A Eucaristia edifica a Igreja e a Igreja faz a Eucaristia” (João Paulo II). Esta admirável filha da Igreja comungou com Francisco da missão carismática de “reparar a Igreja”. No sacramento do Altar, a “Plantazinha” de Francisco encontrou “um oceano de graças, que contém a universal harmonia e a universal comunhão. Estas graças comunicam-se, por sua vez, à cabeça e aos membros do Corpo Místico de Cristo” (Santa Ângela de Foligno).

 

No esplendor da eternidade

 A Fundadora da Ordem das Irmãs Clarissas faleceu no dia 11 de agosto de 1253. Pouco antes de partir deste mundo para o Pai, Clara recebeu a visita do Santo Padre que lhe deu a comunhão. Exultando de indizível alegria, exclamou: “Minhas Irmãs. Louvai comigo o Senhor porque hoje recebi a Nosso Senhor Jesus Cristo e o seu representante na terra”. A sua vida silenciosa e escondida, foi eucaristia perene. No memorial das maravilhas do Senhor, no Corpo entregue e no Sangue derramado, Clara encontrou toda a beleza, toda a santidade e a plenitude da ternura de Deus.

Num mundo cheio de medos, angústias e incertezas, Santa Clara convida-nos a reavivar o amor no Santíssimo Sacramento, fonte da nossa paz e da nossa alegria. Urge contemplar demoradamente o Rosto Eucarístico de Jesus e unir-se por inteiro ao seu Sacrifício de Louvor e Adoração ao Pai.