Homilia: Bispo do Funchal – Ordenação Diácono Carlos Almada

Homilia de D. António Carrilho, Bispo do Funchal,
na Eucaristia da Ordenação Presbiteral

do diácono Carlos Ismael Almada

Sé do Funchal, 5 de agosto de 2017

 

Sacerdotes com o coração do Bom Pastor

“Como é bom estarmos aqui!”, dizia São Pedro no Evangelho. Que alegria estar aqui nesta nossa Sé neste ano da celebração do jubileu da sua dedicação e poder entrar e fazer parte desta história de 500 anos de amor e de presença, de Deus na nossa vida e na vida da nossa região. Estarmos aqui para celebrar a ordenação presbiteral do diácono Carlos Ismael Faria Almada. Alegramo-nos por tantos motivos para dar graças a Deus e porque aqui, neste dia, o Senhor mais uma vez colocou sobre a Igreja Diocesana do Funchal o Seu olhar de misericórdia, concedendo-lhe a graça de um novo sacerdote para o serviço da Diocese.

Naquele tempo Jesus tomou consigo Pedro, Tiago e João. Neste tempo Jesus volta a chamar para estar com Ele, para transfigurar-se diante de nós, para revelar-se completamente a cada um de nós. Hoje Jesus chama o Carlos Ismael a ser seu amigo, a estar com Ele para O seguir de forma mais íntima, para O amar e para O dar a conhecer.

Reconhecer e agradecer

Caríssimo Carlos Ismael, vais receber o dom do ministério ordenado, nesta festa da Transfiguração do Senhor. O Senhor quer chamar-te a estar com Ele para sempre. Quer envolver-te completamente com a Sua luz, com o Seu amor. Damos, por isso, graças a Deus pelas maravilhas que Deus fez na tua vida; damos graças por todos aqueles que para ti, ao longo dessa tua vida, foram sinal de Deus, que te chamou e acompanhou, desde as tuas raízes, na tua família e na paróquia do Campanário. Damos graças, também pelos que te acompanharam e apoiaram, nos Seminários e Equipas Formadoras, aqui no Funchal e em Lisboa, em São José de Caparide e nos Olivais, na Universidade Católica e nas paróquias, que te proporcionaram experiência pastoral. Em suma, damos graças a Deus por todos os que te ajudaram a crescer, a discernir e a optar pela vocação assumida.

O Senhor chama-te ao sacerdócio. O Senhor quer contar contigo para continuar no meio do mundo a sua missão. Chama-te para desempenhares na Igreja, em seu nome, o ministério sacerdotal em favor dos homens, colaborador do Bispo ao serviço do povo de Deus. Sacerdote com o coração misericordioso do Bom Pastor.

A alegria de anunciar Cristo e o Seu Evangelho

O Senhor Vos chamou ao sacerdócio para anunciar com alegria o Seu Evangelho. Diz-nos o Profeta Isaías na primeira leitura: “O Espírito do Senhor está sobre mim porque o Senhor me ungiu e me enviou a anunciar a boa nova…” (Is 61, 1). O próprio Jesus desafia Pedro: “Faz-te ao largo e lançai as redes para a pesca” (Lc 5). E Pedro confiando em Jesus volta a lançar as redes e o milagre acontece. Porque o Senhor o diz, Pedro acredita: “À tua palavra lançarei as redes”. E trata-se de fazer-se ao largo e lançar as redes. Não podemos permanecer acomodados em falsas seguranças. Trata-se de aceitar sempre o desafio e o risco de ir mais longe e mais além, porque confiamos no Senhor. Trata-se de transmitir aos outros o dom que recebemos.

Grande parte da nossa vida sacerdotal é passada no contacto com e na transmissão da Palavra de Deus. Sentimos que não podemos calar a grandeza e a beleza da Palavra de Deus que arde no nosso coração. Percebemos que a nossa missão não é transmitir as nossas opiniões, mas transmitir a beleza e riqueza da Palavra que recebemos.

Anunciai com ardor e paixão a Palavra de Deus. Seja Ela fonte constante de renovação e crescimento do dom do sacerdócio e fonte de misericórdia para conduzir, guiar, animar, apascentar o Povo de Deus. Que o Espírito Santo que inspirou os Evangelhos vos inspire, também a vós, a anunciar a Palavra com amor, com grande proximidade com o texto sagrado, com um coração que medita para viver e também para transformar a vida dos fiéis. A Palavra de Deus alimente a vossa fé e a fé dos fiéis. A nossa missão, diz o Papa Francisco, é unir dois corações que se amam: o do Senhor e os do seu Povo (Alegria do Evangelho, 143). Não tenhas medo de dedicar tempo na vossa missão para preparar com esmero, estudo, oração, reflexão e criatividade pastoral a homilia. A preparação requer paciência e requer tempo, atenção e dedicação, ou seja, no fundo requer amor a Deus e amor ao Seu Povo. A Palavra rezada e anunciada deve transformar primeiro a nossa vida e só depois tocar no coração dos outros fiéis. No anúncio da Palavra, aprendamos a ser próximos, simples, claros, nada demorados, centrados no essencial da mensagem de Cristo. Aprendamos a cativar, a atrair e a mostrar os sinais de esperança na vida e na história.

Viver o sacerdócio com a misericórdia de Cristo Bom Pastor

Neste ano jubilar em que estamos a viver não podia faltar o desafio de espelhar no nosso rosto o rosto da misericórdia que é Cristo. A misericórdia seja a trave mestra de toda a nossa ação sacerdotal. Tudo o que fazemos e a forma como o fazemos seja imbuído pela beleza da misericórdia de Cristo em nós. O Sacerdote é o homem que anuncia a Palavra de Deus com ardor, é o homem que celebra na pessoa de Cristo os sacramentos para a santificação do povo de Deus, mas o sacerdote é também aquele que preside à caridade e anuncia a misericórdia de Deus em toda a sua forma de viver, pela palavra e pelo seu testemunho e pela forma quotidiana de tratar os outros e da sua forma de estar na Igreja e no mundo, em relação com os outros. O sacerdote não vive para si mesmo. Não se acomoda, não se encerra, não se fecha, mas vive o dom que recebeu em saída, na relação com Deus e na relação com os outros. É padre para todos e não apenas para alguns. Como diz o Papa Francisco: “Ninguém fica excluído do seu coração, da sua oração e do seu sorriso. Com olhar amoroso e coração de pai acolhe, inclui e, quando tem que corrigir, é sempre para aproximar; não despreza ninguém” (Papa Francisco no Jubileu dos Sacerdotes). O padre é o homem da comunhão e o construtor da paz. Onde quer que viva e celebre ele constrói a paz e o entendimento e cria condições, no coração dos fiéis e nas comunidades, para isso. Ele rejeita o ódio e a vingança. Rejeita a mesquinhes e as murmurações e abre caminhos para os sentimentos de Cristo entre os homens, de paz, de diálogo, de fraternidade. Ele é o homem da escuta com paciência. Tem tempo para rezar e apresentar as orações da sua comunidade a Deus e tem tempo para ouvir o seu povo e apresentar-lhe esperança, porque tem Deus no seu coração.

Diz-nos o Evangelho: “Eles deixaram tudo e seguiram Jesus” (Lc 5, 11). O sacerdote não vive o seu sacerdócio apenas como um part-time. Não dá apenas cinquenta ou sessenta por centro, mas entrega-se completamente à sua missão, ao seu ministério, ao serviço que a Igreja lhe confiou. Ele não tem outro plano, ou outras seguranças a não ser a alegria de seguir Cristo na Sua paixão, morte e ressurreição.

“Senhor afasta-te de mim, que sou um homem pecador”

São Pedro, no Evangelho que acabamos de ouvir, ficou tão impressionado com a pesca milagrosa que acabou por cair de joelhos diante do Senhor e sentir a sua fragilidade. Ser sacerdote não é ser impecável ou imaculado ou um qualquer super-herói. É sempre transportar a riqueza e o dom do sacerdócio que recebemos com o frágil vaso de barro que somos. Confiamos não nas nossas forças e capacidades, mas no Senhor que nos chamou com misericórdia. Com humildade vivemos o nosso sacerdócio e com gratidão servimos o Senhor com alegria. Somos transformados pela misericórdia de Deus e em cada dia dizemos e voltamos a repetir o nosso sim ao Senhor que nos chamou. Que nada nos possa separar do amor de Deus. N’Ele confiemos a nossa vida e permaneçamos confiantes e serenos nas Suas mãos. Na dureza do trabalho, nos fracassos e dificuldades voltemos sempre o nosso olhar para Ele.

Que através do nosso testemunho os jovens possam sentir o inquietante desafio do Senhor: “Vem e segue-me”. Caríssimos jovens, procurai descobrir a vossa própria vocação, o caminho de uma vida que vos faça felizes e contribua generosamente para a felicidade dos outros; abri o vosso coração a Cristo, Redentor da Humanidade; escutai o Senhor que vos ama e chama alguns de vós a uma especial consagração, na vida sacerdotal, religiosa e missionária ou nos institutos seculares; deixai-vos contagiar pelo testemunho de paz e alegria de tantos outros jovens, rapazes e raparigas, que, cheios de alegria e entusiasmo, avançaram por esses caminhos da missão, bendizendo o Senhor.

Jubileus sacerdotais

E, a terminar, ao mesmo tempo que felicito o novo sacerdote pela generosidade e alegria do “sim”, na disponibilidade para o serviço do Povo de Deus, saúdo também aqueles que, em 2017, celebram jubileus das suas ordenações presbiterais: 25 anos (Bodas de Prata), Reverendíssimos Cónegos Manuel Martins e Vítor dos Reis Franco Gomes e Reverendos Padres José Luís Gouveia de Sousa, José Afonso Nóbrega Rodrigues e João Humberto de Vasconcelos Mendonça. Bendizemos o Senhor pela vida e ministério destes sacerdotes e para cada um imploramos as Suas maiores Bênçãos.

À Mãe da Igreja

E ao terminar, e neste ano do Centenário das Aparições de Nossa Senhora de Fátima confio a Nossa Senhora, Mãe de Deus e Mãe da Igreja a todos os nossos sacerdotes, diáconos, seminaristas e jovens em discernimento vocacional. Que eles se deixem conduzir pela novidade do Espírito de Deus e respondam, com alegria, entusiasmo e empenho, à própria vocação, na fidelidade e inteira disponibilidade para servir, como Maria.

Funchal, 5 de agosto de 2017

† António Carrilho, Bispo do Funchal