Convento de São Bernardino: Um espaço muitas missões

Já foram cinco ao todo, mas hoje só resta um para contar a história dos Franciscanos na Madeira. Fundado em 1459/60 o Convento de São Bernardino fica localizado em Câmara de Lobos, no caminho do mesmo nome, nº 85, entre a atual igreja e o Ribeiro dos Frades.

«A sua fundação é atribuída a Fr. Gil de Carvalho, um humilde frade franciscano que veio do reino para a Madeira. Desejando Fr. Gil viver em lugar desértico como eremita, como escreveu depois o deão António Gonçalves de Andrade (1795-1868), anotador da História Insular do Pe. António Cordeiro (1641-1722) a partir da História Seráfica, levantou um pequeno cenóbio com dois cubículos “em dois pés de terra semeada entre rochas”, num dos quais habitava o fundador e no outro João Afonso e Martinho Afonso, os quais esmolavam pelo povoado para a sustentação dos três (SOLEDADE, 1705, III, 170-171).».

Atendendo ao aumento do número de frades, «trataram de levantar um pequeno convento em terreno que lhes foi doado por João Afonso Correia (c. 1435-1490), escudeiro do infante D. Henrique, e sua mulher, Inês Lopes, que na Ilha foram o tronco da casa Torre Bela. A nova casa religiosa erguia-se num sítio afastado da povoação, cercado de um lado pela ribeira e do outro, por uma rocha, sendo bem própria para o género de vida a que se dedicavam. Passados alguns anos reuniram-se outros religiosos, que formaram a comunidade inicial, mas uma enchente da ribeira, pelos anos de 1480, haveria de destruir a pequena ermida e os primeiros cubículos, o que desgostou irremediavelmente Fr. Gil de Carvalho, que se retirou para o continente, entregando a direção a Fr. Jorge de Sousa.».

Foi Fr. Jorge de Sousa quem «reconstruiu o convento, um pouco mais acima, ao abrigo das correntes caudalosas da ribeira, tendo sido levantada nova e mais vasta igreja, com novas celas, “que logo foram habitadas”, tendo ficado o espaço inferior do inicial ermitério para “algumas oficinas de menor importância” (SOLEDADE, Ibid., 173). Data dos finais do séc. XV aos inícios do XVI a organização canónica do convento como uma verdadeira casa monástica, depois de ter melhorado consideravelmente as condições materiais através de doações, contratos de arrendamento, etc., como era hábito, pois estes mosteiros funcionavam também como empresas agrícolas.».

A fama e o desenvolvimento da comunidade encontram-se decididamente ligados à presença de Fr. Pedro da Guarda que, nascido na Guarda, em 1435 e que, «tendo professado por 1455, “querendo subtrair-se à admiração que causavam as suas virtudes” (SILVA e MENESES, 1998, II, 103), se refugiou em S. Bernardino por volta de 1485. Falecido em 1505, logo a sua fama se espalhou pela Ilha e pelo continente, sendo referido por Fr. Marcos de Lisboa (1510-1591), depois bispo do Porto, na terceira parte das suas Crónicas de los Frayles Menores, editadas em Salamanca, em 1570, não tendo nunca cessado o culto popular que lhe tem sido devotado.».

A comunidade de S. Bernardino foi crescendo ao longo do séc. XVI e, por volta de 1584, Gaspar Frutuoso (c. 1522-c. 1591) alude que ali viviam permanentemente 7 a 8 religiosos, sendo o Convento “abastado de toda a fruta e vinhos” (FRUTUOSO, 1968, 122). Em 1598, no Recenseamento dos Fogos, Almas, Freguesia, e Mais Igrejas, registavam-se 10 a 12 religiosos, sinal de continuar a crescer a população residente do Convento e, por certo, pela devoção suscitada com a ocorrência, no ano anterior, da localização da sepultura de Fr. Pedro da Guarda.

Hoje, com as suas paredes alvas, este conjunto de elementos arquitetónicos únicos na Madeira, e que ostenta a classificação de Imóvel de Interesse Municipal, guarda agarradas aos seus alicerces histórias de sucessivas alterações. Destruído e reerguido várias vezes, o Convento de São Bernardino, onde viveu e morreu não só Frei Pedro da Guarda, mas, também, a irmã Mary Jane Wilson, está como novo graças às obras de restauro de que foi alvo em 1928 e, mais recentemente, em 2015, coincidindo esta última fase com o regresso dos frades a Câmara de Lobos.

Posto ao serviço da comunidade, o Convento é o espaço ideal para a realização das mais diversas iniciativas, sejam elas de cariz religioso ou cultural. De resto, por si só, todo o conjunto merece uma ou mais visitas, a fim de que se possa disfrutar em pleno dos seus inúmeros recantos.

Precisamente para facilitar o percurso e, sobretudo, permitir uma melhor compreensão dos espaços por parte dos visitantes, no passado dia 27 de julho, por ocasião da celebração que assinalou os 512 anos da morte de Frei Pedro da Guarda, numa eucaristia presidida pelo bispo do Funchal, D. António Carrilho, foi lançado um desdobrável em que estão assinalados os lugares de maior significado. Um deles é o tumulo de Fr. Pedro da Guarda, ao qual afluíam peregrinos de toda a ilha, pedindo e agradecendo a sua intercessão.

Merece igualmente destaque, neste roteiro apresentado por Frei Nélio Mendonça, a gruta onde Frei Pedro costumava orar, que fica próxima da capela de São Lourenço e a própria Capela de São Francisco, que ainda está a ser alvo de obras e que foi sede da Ordem Terceira (OFS). Ali se velou o Corpo da venerável Irmã Wilson, em 1916.

O horário das visitas é das 9h30 às 12h30 horas e das 15h00 às 18h00 estando o Convento encerrado aos sábados. Há a possibilidade de se realizarem visitas guiadas para grupos, mediante marcação prévia.

Quanto ao horário das missas é o seguinte: 8h30 às Terças e Sábados e 11h30 aos Domingos e Feriados.